sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A cabelerêra que cometeu iatrogenia OU Fixação anal OU Tendo um cu na cabeça

Cabelerêra sim! Ao ter me violentado ela me deu todo o direito do mundo em relação à profissão dela. Carrego, agora, 3cm² de carequisse na área anterolateral direita da cabeça por culpa dela.
Véspera de Natal. Cheguei pontualmente no salão e tive que esperar por ela. Meu corte de cabelo foi interrompido inúmeras vezes: mulher bigoduda que queria livrar-se de seu másculo porém; conhecido a pedir corte de cabelo grátis em virtude do Natal – bem fez ele de ir embora por pressa! -; jovem com seios caídos buscando por um sutiã recortado nadador nas costas – pois iria usar um vestido tomara-que-caia e não se sentia à vontade sem o pára-peito -; telefonema de filhos... Entendo a atribulação de quem tenta ganhar dinheiro em negócio próprio e quase informal, no entanto, impelir-me um mapa do desmatamento da Amazônia é falta injustificável.
Quando do acidente pediu que eu não chorasse, pois se fosse ela estaria já chorando e caso eu caísse em lágrimas era faria o mesmo. Por favor! O mais novo careca a contra gosto ali era eu! (E eu me conheço bem. Talvez rodeie demais para tentar falar o simples – visto ser tão complicado. Aceitável seria uma cliente esfalecer-se em lágrimas.) Mantive-me com cara de bom humor e, é claro, não permiti as sugestões dos presentes fossem acatadas: eu nunca raspei a cabeça e nunca rasparei! Além do mais, convinha o sofrimento dela também.
Nunca raspei a cabeça. Só farei isso quando me achar de rosto bonito. Nunca raspei a cabeça, nunca. Em tempo de comemoração pelo vestibular concorridíssimo, mandei cortarem-me o cabelo à máquina dois, assim disse aos veteranos que o ritual medieval já tinha ocorrido, estava ali, portanto, um cabelo novo em folha. Ainda de calourisse, pintei o cabelo todo de vermelho com bolas amarelas e depois de passada a necessidade universitária da extravagância, mandei pintar todo o cabelo de preto; ao passo que os colegas, todos, rasparam a cabeça novamente. A cabelerêra-barbeira foi a instrumentista de todas essas articulações anti couro cabeludo à mostra. Desejo que ela sofra muito.
Há dois dias feri e queimei meu couro cabeludo ao passar um produto fedido e forte que minha mãe aplica bimestralmente. Estava há dois dias sem lavar o cabelo. Cabelo duro, fedido e esperançoso de um novo corte, visto que a natureza das pontes de enxofre proibia minha vontade, bom gosto e imaginação. Nunca imaginei sentir tanto ódio de alguém.
Apoiarei todo e qualquer processo de ressarcimento por danos morais. Eu não entendia o porquê das pessoas sentirem-se satisfeitas com dinheiro em troca do cachorrinho de estimação que morreu no compartimento de carga do avião por terem se esquecido de abrir um canal de ar. Talvez se ela pagasse o boné caríssimo que comprarei, mais as peças jeans que eu namoro na vitrine minha tristeza torne-se relativamente menor. A alegria a ser instaurada será tão maior que penderá a balança do humor para o bom: processemos! Ainda repito “ai, que ódio”, ai, que ódio; dentro de mim.
Ela tentou remediar com palavras. Desculpou-se diabeticamente. Encarecidamente. É que ela tava tirando o pente da máquina a todo tempo para eliminar o cabelo que acumulava e aquela máquina não é a qual mais usa. A outra está com o pente nº 3 estragado pelo calor da chapinha que foi posta ao lado dele. Ela ia fazer as bordas do cabelo, mas acabou indo direto para o meio da cabeç... Ah! Chega! Está tudo bem! Só não fale mais sobre assunto! Está tudo bem.
Eu sou um cliente emocionante! Ajudo a tornar o cotidiano profissional menos tedioso: sempre chego carregado de novos e inéditos caminhos de rato por ter a mania de, eu mesmo, retocar meu corte de cabelo. Faço mesmo sabendo que não vai dar certo, afinal de contas eu sou legal e nunca reclamei de uma costeleta maior que a outra, de mechas gigantes, de corte mais cumprido ou curto do que gostaria. Enchi a boca: quando eu corto meu cabelo eu faço caminho de rato, mas isso eu nunca fiz. Pensei em acrescentar um “não”, com uma risadinha final, assim: quando eu corto meu cabelo eu faço caminho de rato, mas isso eu nunca fiz não! [risinho]. Mas era instante correto de tortura. É tão bom. Bom mesmo. Ser carrasco havia de ser uma profissão muito boa! Não só por torturar pessoas e ter razão ao mesmo tempo, mas também porque se você perde a atenção e faz uma merda não há problema, o culpado vai morrer mesmo, não é?! [risinhos]. [Risinhos.].
A notícia, por certo, espalhar-se-á. Não verão a clareira na minha copa, pois estarei usando algum adorno caro, como disse. Tenho medo da falta de inteligência lógica e auto-exemplificativa das pessoas. Eu sei que Fulano está com um cocô na parte anterolateral da cabeça e o Fulano está com um objeto a tampar esse cocô. Logo, Fulano não quer que vejam esse cocô! Se pedirem pra ver esse cocô – ninguém gosta de cocô, e todos querem ver! É sempre assim com a desgraça alheia! É uma qualidade de entretenimento capaz de transformar seres humanos em mosca de cocô -, vai ser uma só: eu deixo você ver com uma condição! Arrie a calça e a peça íntima, vire-se de costas para mim, toque os pés com as mãos e levante o quadril: quero ver seu cu. Nu. Seu cu. Se me deixar ver seu cu eu mostro meu quadradinho de falta de cabelo! E aí eu começo a me divertir! Demais! Imagino excelentes situações. Caso uma jovem que teve filho acidentalmente me peça, eu mostro com a condição de ver o útero dela. Caso uma freira me peça, hehehe... Caso um tatuador me peça, eu mostro com a condição de ganhar uma tatuagem ali. Mas ver a face das pessoas diante da condição de mostrarem o cu pra ver uma faltinha de cabelo será impagável.
Um dia eu termino esse texto, sinto que, talvez, minha fisiologia tenha percebido a existência de um novo esfíncter no meu corpo... Tem prejudicado as idéias.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Ira!

Uma vez, quando era a última vez que dividiria banheiro com aquela outra pessoa, eu tomei banho e depois escrevi "Vai tomar no cu!" com sabonete no espelho já limpo. Quando o espírito de porco tomasse banho o vapor desenharia uma bela mãozinha que eu desenhei também!
Foi minha maior ofensa, acho. Porque eu tava indo embora já! Nunca mais nos veríamos! Eu mandei tomar no cu mesmo! Era tipo um jumento atleta em pessoa! Às vezes parecia ser um ser misturado anta e ser humano. Mas nem chamava Sertão. Perdedor mesmo. Meu filho pode ser que chame Sertão. Bonito, né?!

domingo, 25 de outubro de 2009

Dormir

Faz um tempo que as coisas, todas elas, têm sido difíceis. Hoje, durante uma parada da viagem, eu só fumava um cigarro com a inocência de quem fuma na rodoviária e fui apunhalado por um senhor demasiadamente simplório de vestes, com boné velho sobre cabelo oleoso. Absolutamente do e por nada ele despejou em mim uma curiosidade:
- Imagina um homem apaixonado voltando para casa.
Não mesmo. O que fazer com o humilde homem a me pedir os ouvidos?
E olha que era uma escuta cara, pois antes de começar a fumar um bêbado me pediu um cigarro e eu menti que não tinha. O pior de tudo foi a percepção de que ele não estava bêbado o suficiente para considerar seus padrões ao interpretar a vida. Ele sabia que de short e camiseta no frio e sem banho estava sendo julgado nos padrões da lucidez. Andando descalço na rua suja que te serve, por vezes, de cama.
Mesmo sabendo não dever, eu dei corda para o narrador da situação e fiquei a ouvir o quanto era a felicidade dele: sua embriaguez estava no sofrimento de ser condenado ao trabalho. Estava esgotado do trabalho, não aguentava mais manusear tratores na Bahia, Pará, Ceará e não sei mais em quais estados brasileiros. "Mil e oitocentos reais por mês, rapaz! Pra quê?". Dizia-se estudado, com curso em segurança do trabalho, operação de máquinas pesadas e tinha filha advogada, casa própria, apartamento de dois andares bom e carrinho. A filha insistia pela aposentadoria! Não mencionou a mulher. E não parava de falar sobre a vida que o fez um homem do trabalho. O behaviorismo de acordar cedo na infância para colocar seu corpo e sua mente - mais o corpo que a mente -, a favor de uma artificialidade. Perguntou do clima, de onde eu era, aonde eu ia e sai quando ele disse que não sabe fazer como essa moçada de hoje, que dormir o dia inteiro é difícil, que tomar a decisão de aposentar-se foi cruel. Dormir é um assunto delicado para mim!
Depois que eu vi o ser de corpo de boneca e cabeça de mulher que andava com uma muleta, dormir pra mim é pecaminoso. Demonstrava-se embriagada. A voz e o vocabulário eram infantis. "Minha boca está dormente". Sotaque nordestino, cabelos loiros bem enrolados e compridos enfeitados por uma flor azul de tecido, boca pintada de vermelho e lábios velhos, mas eu perguntei a idade por suspeitar de pedofilia, visto que aparentava doze anos! Os olhos bobos que pareciam nem conhecer todas a cores, sabe? Aqueles olhos que tem um lágrima guardada de quem chora por sono, banho ou comida. Não sei como explicar, porque os olhos olhavam certo... Ela não era nova! E tinha o corpo desproporcional, sinceramente! Hora me pareceu ser uma pessoa com uma síndrome Peter Pan física do pescoço para baixo, como uma anã bem baixa. Hora me pareceu ter braços longos demais com um tronco extremamente, muito mesmo, magro. Minha conclusão é que era um corpo pequeno, braços compridos, uma mola no lugar de uma perna, enfim, a penumbra me confundia o corpo dela, mas o rosto era de criança e de moça ao mesmo tempo.
- Lindinha, quantos anos você tem?
Isso porque o jogo Carué tinha sido bem sucedido no pré-abate das mocinhas, claro. Senão ela não usaria a muleta para guardar o assento vizinho para um homem cujo nome não me lembro. Era outro ônibus, outro dia. Íamos para uma festa e eu a vi. Primeiro enquanto eu subia no ônibus, depois no banco da frente. Não sei se ela me perguntou quantos anos eu dava pra ela, mas acho que disse doze, sim. Ela disse na verdade ter vinte e dois e, como que se me mandasse um recado para mim ao falar com todos que ouviam, afirmou saber o que acontecia, que sabia se cuidar, que imaginara a boa aparência no futuro, que era um saco ter todos olhando pela segurança dela e que a mãe dela estava lá, dois bancos à frente, para cuidar dela? Dormir já seria suficientemente difícil sem as voz dela relembrando o estado de pálpebras baixas e o corpo mole:
- O ato falho é a vitória do inconsciente...
0Porque ela sabia que eu queria lembrar, justamente, dessa frase? What not to do: mantras, eles são perigosos! Opa Carué quantas patacas tem na feira, Me Lambe? Opa! Na feira... Suculenta... Deliciosa? Opa! Na feira... Vou Gozar... Me Chupa! Opa... Na feira? Me Lambe... Gozadinha! E nesse trava língua de vocativos estratégicos, a cada vez que alguém da roda errava, bebia. As moças, mais fracas na astúcia e na resistência alcoólica, bebiam mais e eram embaladas pelas frases bem ditas. Os apelidos mudavam: Ai, Gostoso, Ui, Vem!, Ah..., Opa, etc. E quando alguém se complicava respondendo em hora errada ou não respondendo, cantava-se em coro que o Carué não é um jogo para mané, no qual se bebia até o dia amanhecer. Quando o líder da roda, o Carué, erra, ele também bebe e, uma vez, ouvi algum coro sobre sendo o ato falho uma vitória do inconsciente. Como não deixar sua alma ser levada por murmúrios, pela vontade que devia cheirar mais forte que a pinga da garrafa pet, pelo errado acontecendo? Acho que é por isso que o inconsciente ganha e eu acho que aquele moça com corpo de boneca e cabeça de mulher estava fazendo uma escolha, só. Tal qual a outra que, coincidentemente, fizemos igual.
- O ato falho é a vitória do inconsciente, só digo isso!
O assunto da idade dela rendeu. Nas conversas até disseram que Carué era jogo de tornar fáceis as menininhas e ela prontamente concordou - com os olhos caindo e com os dedos testando a sensibilidade da boca, prontamente, no entanto. A menina-mulher-anã-perna-de-mola resmungou mais no mesmo tom infantil, falando sobre doces, pirulitos, mãe e risadas de quando o palhaço tira a cadeira do outro palhaço. Questionaram sobre seu grau escolar e eu só lembro ela dizendo que tomou bomba três vezes, duas! Três! Reprovada mais de uma vez por ser burrinha e não gostar de estudar, não. Gosta de dormir.
- O ato falho é a vitória do inconsciente...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Comer

Fui temperar o frango e lembrei que no miojo já vai o temperinho... A comida tá com sal no ponto certo, quer mais que isso?
Não sei qual é esse ponto.

Comer

Fiz suco sem ter a menor noção do quanto de água e de suco tinha ali, eu queria três partes de suco e uma de água!
Esses dias eu tomei sem açúcar e tava mó bom...
Fechou!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Comer

Fui ao supermercado e queria um pão gostoso, visto que eu vou viver dele nos próximos dias. Lembrei que o pão de milho tem um gostinho de milho e achei um pão de batata! Que gostoso, mas a moça não sabia dizer se o pão de batata tinha mesmo gosto de pão de batata! e se era diferente do gosto do pão de iogurte de maçã, banana e linhaça! Como vou comer nos próximos dias?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O twitter vai ter mais usuários que o Google porque é Deus

É difícil escrever com a minha mãe fingindo que está falando consigo mesma em voz alta para que eu ouça o que ela diz para si. Embora seja patética, é uma provocação muito pertinente, pois ouvidos não têm pálpebras! Por que famosos têm twitter? Porque no twitter não é preciso ouvir... Você só fala o que bem entende e caso alguém te responda, a chance de ela estar falando com um interlocutor que não a despreza por nem saber que ela existe é grande. No twitter você provoca muito e sofre pouco, conclui-se que o twitter é o ser perfeito, o ser com pálpebras nas orelhas.
É muito chato ser obrigado a ver, chatisse essa pautada no mesmo fator alucinante da história do não ser recompensado por ter feito porque quis, aliás, existe algo mais irritante do que isso? Do que alguém que te atribui uma segunda tarefa, quando o combinado era uma tarefa por pessoa, sob a alegação de que a primeira foi feita por livre e espontânea proatividade? Está feito. Eu não como mais um quilo de nozes de uma vez por já ter feito e, consequentemente, sofrido com isso; cachorrinhos não comem carne com mosquitos verdes voando - porque não voam, sendo assim difícil acompanhar mosquitos carnívoros durante um banquete-vôo livre -, porque sabem que se comerem vão ser prejudicados! Depois que você entra no rio você muda, o rio muda. A máquina do mundo funciona, agora, na cadência compassada pela engrenagem que você instalara: a terefa já realizada. Não se é obrigado a ver, por mais irritante que essa liberdade seja. Feche os olhos! No entanto, é-se obrigado a escutar, porque ouvido não tem pálpebras... O que irrita mais: ter que fechar o olho para não ver ou escutar?; entender que seu campo de visão não pertence a você ou entender estar condenado a ouvir quaisquer depoimentos feitos para que ouça? Entendemos agora porque é difícil escrever com a minha mãe fingindo que está falando consigo mesma em voz alta para que eu escute o que ela diz para si.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu odeio a Casa Primavera e meu sonho é ser a Casa Primavera e eu sei que é pesadelo

A Casa Primavera de Ouro Fino é uma dessas lojas que seus pais conhecem porque freqüentavam na infância, visto que seus avós eram, certamente, fregueses de tal estabelecimento. Você, jovem que foi fã de Malhação em algum período da sua vida - por mais que isso te envergonhe hoje -, entraria na Casa Primavera para comprar peças que te faltam numa fantasia, como espuma em flocos e camisa branca por exemplo. É absurdo pagar caro numa camisa toda branca que vai te servir para sujá-la! Os artigos da Casa Primavera são de qualidade questionável, mas são baratos. É para o tipo de público que gasta um quantia X de dinheiro por ter que comprar três camisas brancas em três anos. Há o grupo que gasta uma quantia X de dinheiro em uma camisa branca só, e permanece com ela por três anos. A diferença dos dois modos é que naquele você precisa de, aproximadamente, 0,333333X por vez e neste você precisa ter X de uma vez só. Levar em consideração que X é igual a R$90,00 ajuda na compreensão. Irrita um pouco na hora de experimentar a camisa branca, é justo considerar chato ter que explicar que é para uma fantasia que a pessoa que te atende não vai entender. É justo considerar chato ter que explicar o que é droog e o que é Laranja mecânica sabendo que não vai adiantar. É justo querer ver sangue saindo da cabeça quebrada da merda da atendente por ouvir um "ai, que gostoso!" só porque a festa à fantasia a qual você se refere é a de Campinas e não é a de Ouro Fino... Aquele ar de inferioridade só porque você freqüenta festas em Campinas e o curso de medicina referência nacional não causa nela a mesma inveja. Mediocridade.
É permitido entrar na Casa Primavera para comprar presentes de amigo secreto, porque tirar o professor é complicado...! A menininha nerd comemora e o esculachadão repetente solta assim que termina de ler o nome - e não assim que bate o olho -, um "puta que pariu, meu, que bosta!", é ou não é? Deve-se dar um presente bom, não só por orgulho, mas também por merecimento, afinal aturar salas com quarenta almas entusiasmadas é coisa de gente grande... A Casa Primavera tem artigos baratinhos e bonitinhos, os quais agradam o professor e não ferem o bolso dos pais: camisetinhas femininas de R$1,76; carteiras de um material parecido com couro mas que deve demorar mais que piche para se desfazer na natureza; chinelos rasteirinhas - e que mulher não gosta desse tipo de calçado? São confortáveis como uma havaianas e podem ir ao trabalho, já que tem strass, chefinho!
A loja jaz num ponto da rua principal da cidade. Não mais em um salão grande - tipíco de comercial da Bauduco quando decidem enfatizar a tradição da marca no mercado -, com vitrines sofrivelmente decoradas; agora ocupa um espaço no andar menos um. Seu elo de ligação à calçada da rua principal é uma porta. Da porta a escada que desce mergulhando na penumbra, visto que por mais iluminada que esteja nunca está clara. Repleta de mulheres velhas e gordas às terças, quintas-feiras e sábados e entregue ao tédio nos outros dias das semanas, inclusive no domingo, pois eu duvido que o dono tenha mais que o Faustão para substituir a caixa registradora e duvido que as moças atendentes tenham mais que a paquera da missa ou falos incompetente do namorado ajudante de mecânico pra incluir vida na existência. Terça, quinta e sábado são os dias que vem o circular da roça! Dias de ir ao banco pegar a aposentadoria, de ir à Utilar ver se o paneleiro deu um jeito na panela de pressão, dia de ir ao Supermercado Shimoda comprar arroz e litros e litros e litros de óleo de soja e dia de ir à Casa Primavera comprar uma camisa pro filho, cueca pro marido, calcinha pra enteada, anágua pra mãe e pano de pratos para si própria. Observa-se mais um agravante - não me refiro ao pano de pratos! -: terças, quintas e sábados do início e meio do mês, sempre sobra mês no fim do recebimento.
Bons tempos da família tradicional do mascate que subiu na vida esses que mencionei. Sim, os relembrados nos comerciais de natal da Nestlé! Creio eu que foi reflexo da ascenção da DuPont nos Estados Unidos. Quem diria... Meias artigo de luxo, mesmo não sendo de seda! Observa-se mais um agravante e sim, agora eu me refiro à ânsia carne podre, à vontade de imitar os ricos, à cegueira que fez meias de algodão enriquecerem um mascate no Brasil e culminou com a inauguração da Casa Primavera. Bonito nome! Imagina... que linda a Casa Primavera! Não é a casa da primavera! É a Casa Primavera... Deve cheirar lavanda bem fraquinho, um ambiente no qual o branco é meio azulado e a pupila contrai a menor que um ponto, por mais infinito de grande e pequeno ao mesmo tempo que um ponto seja... Também há a possibilidade de se ir à Casa Primavera comprar uma regata branca: meu sonho! Coisa de gente chique de verdade! Essa onda simplicidade, negação ao capitalismo, acordo lindo assim... Mas tem que ter corpo, não é? A regata branca denuncia se o braço é fino demais, se não tem ombro nem peito, se a barriga está meio saliente, é uma desgraça! O dia em que eu vestir uma regata branca e achar que estou bonito, que está legal, o meu medo em ser assaltado não vai mais ser a possibilidade de o ladrão ser um pivete que não tendo o que roubar leva minhas roupas e meu tênis, deixando-me de cueca em público e me fazendo passar vergonha. É uma questão de raciocínio: se eu estava de regata branca na rua é porque me aceitei com ela, ou seja, estava gostoso o suficiente para usá-la e para não passar vergonha em caso de semi nudez no meio da rua. O dia em que eu estiver vestido com uma regata branca da Casa Primavera meu medo em ser assaltado vai estar no prejuízo do roubo, tornando o meu capitalismo cheio de densidade psicológico-poética um capitalismo carne podre do nascimento da Casa Primavera. O dia em que eu realizar o meu sonho de comprar a regata branca da Casa Primavera eu vou ser um pouco da lamentável Casa Primavera... É como não poder ir ao meu próprio Réveillon.

domingo, 27 de setembro de 2009

Como provar teorias usando a existência hipotética de uma ilha OU A Ilha de Lesbos

Famílias grandes do interior de Minas Gerais têm lá suas maneiras. Sempre existem pedaços genealógicos teus enfiados em algum vale, rodeados de natureza com uma cozinha de fazer queijo em casa. E quando os visita, tu comes frango caipira – sim, o do peito pequeno, a graça seria chupar os ossos -, pastel de queijo, claro – vai pinga na massa! -, e até chás hipnóticos que, quando acompanhando bolinhos de polvilho, parecem água! Ainda mais pra quem não toma café. O sono é pós-prandial. As pálpebras criam com o chão um quimiotropismo positivo – mas campo magnético aqui ia ser perfeito... -, e são puxadas para baixo a fim de destacá-las do teu rosto; como tu estás anestesiado, nem sente. Quando tu chegar em casa, dormes. Dormes. Dormes. Dormes. Nunca mais acordas e quando acordas, acordas com uma dor de cabeça, uma sensação de desidratação... Res-sa-ca!
E quando são esses elos co-sangüíneos perdidos que te visitam?
- Diego, vem aqui!
- Sim mãe.
- Olha quem está aqui!
- Olá, olá! Boa tarde!... Mãe, quem são?
Destruindo sua tentativa de discrição, aos berros:
- Uai, é Virgininha do Beto! Você não se lembra dela?
Essa pergunta arremate é coisa de inimigo, não é coisa de mãe.
- Não sei se eu lembro, mãe. Da onde eu a conheço mesmo?
- Ah Diego, a Virgininha do Beto, filho do Cráucio leiteiro, eles são do Feijoal. O Cráucio é filho do irmão do Vô Nardo!
- Ah... Então o “Cráucio” é seu primo e a Virgininha é casada com o filho do seu primo!
- Isso, o Beto é meu primo de segundo grau!
- Não mãe, de quarto.
Depois que nossos parentes tomaram volta à vida bucólica que levam, minha mãe e eu passamos um tempo conjecturando acerca dos graus de parentesco. Eu defendia a idéia de que primos ditos “de primeiro grau” são, na verdade, parentes de terceiro grau. E ela dizia que estão relacionados em terceiro grau, no entanto, são primos de primeiro grau, o grau seria grau um, e que há diferença ao quantificar o quão próximo tu és de um relativo, pois há as relações de consangüinidade e de parentesco, que são mensuradas diferentemente.
Não aceitei. Todo o mundo até entende o que se quer dizer, entretanto, há os que usam a tal relação de parentesco apenas, ficando com uma noção enganada do grau de consangüinidade. Só que essas pessoas não precisam se referir à relação de consangüinidade, usada na genética por exemplo. Sendo assim ficou certo!
Sempre se entende, então é certo. Não causa engano; ajuda na organização do quem vai cuidar da avó velha que, possivelmente, tornar-se-á um estorvo; ensina aos mais novos que o papai e a mamãe também têm primos – mais um indício de que eles também foram crianças! Porque primo é primo. Brincar de esconde-esconde na ceia de Natal com galera é a melhor coisa! E brigar pra ser o Power Ranger vermelho então? Mal sabíamos que ele estaria nas telas pornô um tempo depois e sem mudar o nome artístico, o que é um dolo gravíssimo! Afinal de contas, caso tu não saibas ainda, o teu nome no mercado pornô é produto da regra:

NOME DO TEU ANIMAL DE ESTIMAÇÃO PREFERIDO + ÚLTIMO NOME DA RUA EM QUE MORAS

Não tem erro! Xaninha Rodini, Luck Rigotto, Night Saudades...
Imagina a Ilha dos Porn Stars no Hawaii. Habitada apenas por artistas do sexo e cercada por um arrecife de corais que contém muito ferro na composição de suas proteínas, o que cria um campo magnético ao redor da ilha e implica qualquer pessoa entrar ou sair da ilha com uma segurança máxima de 16,3% - sinceramente, campos magnéticos são infalíveis! Adoro-os.
Entenderás a razão da existência hipotética dessa ilha dos prazeres!
Imagino eu passando o Réveillon nessa ilha: apenas pessoas jovens, lindas, saradas, sensuais... Pois é, meus critérios me excluíram do meu próprio Réveillon.
Estará mesmo correta essa engenharia abstrata de colocar primos como “primeiro grau”, sendo que são parentes de terceiro grau? Levando em conta que a palavra “primo” já designa “filho do seu tio”, dizer “primo de primeiro grau” está certo ou errado. E só é certo por ser certo para todas as pessoas. Objetivando responder ao questionamento, sugeri que minha mamãe imaginasse um lugar normal, repleto de pessoas normais, que freqüentam escolas normais, nas quais se aprende biologia normalmente. O fator exógeno é que esse lugar é um pouco menor que o estado do Paraná e está cercado de água salgada, do mar, por todos os lados! Sim! É uma ilha! Uhul! É a Ilha dos Filhos Únicos: nunca houve uma mulher nessa ilha que tenha gestado mais de uma vez. Fica na micronésia e... Consegue adivinhar? Há um campo magnético fortíssimo rodeando esse lugar, impedindo o trânsito de pessoas, o que, obviamente, não impediu que a população local desenvolvesse sociedade, cultura, política, economia e tudo mais de forma normal (a última temporada de LOST vai explicar como foi possível).
Nessa ilha nunca se falou em primo de segundo grau, pois ninguém tem primo! Então para eles estar relacionado a alguém que é filho da irmã da sua mãe é terceiro grau, ok? Se a gente desligar o campo magnético da Ilha dos Filhos Únicos (em LOST já fizeram isso!) e pinçar algum nativo e colocá-lo no nosso meio, falar primo de terceiro grau vai causar mal entendido, tornando esse modo de quantificar familiaridade incorreto! Ufa!
- Então dizer “primo de segundo grau” só estará errado caso a Ilha dos Filhos Únicos exista?
- Existe a Ilha de Lesbos, não existe?
Ilhas com campo magnéticos são excelentes! Não sabe mais como defender um erro? Ilha cercada por um campo magnético. Fe-chou.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Eu estudo medicina e agora estou indo assistir a uma aula de ética. Meu professor de ética candidatou-se a vereador nas últimas eleições: ou ele é o professor perfeito para esse conteúdo pelo seu idealismo, coragem e vanguardismo ou ele é o exemplo perfeito do mau caratismo, desrespeito e arcaicismo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cartão Postal
(Rita Lee - Paulo Coelho)

Pra que sofrer com despedida
Se quem parte não leva
Nem o sol, nem as trevas?
E quem fica não se esquece tudo que sonhou
I know...
Tudo é tão simples que cabe num cartão postal
E se a história é de amor
Não pode acabar mal
O adeus traz a esperança escondida
Pra que sofrer com despedida?
Se só vai quem chegou
E quem vem vai, vai partir
Você sofre, se lamenta
Depois vai dormir
Sabe?
Alguém quando parte é por que outro alguém vai chegar
Num raio de lua, na esquina, no vento ou no mar
Pra que querer ensinar a vida?
Pra que sofrer?
Baby só vai quem chegou
E que vem vai partir
Você sofre, se lamenta
Depois vai dormir
Sabe?
Alguém quando parte é por que outro alguém vai chegar
Num raio de lua, na esquina, no vento ou no mar
Pra que querer ensinar a vida?
Pra que sofrer com despedida?

sábado, 13 de junho de 2009

? ou Texto que só existe porque neguei um real a um pedinte

Eu tinha acabado de dar banho no cachorro e tal qual a louça, era ele que me lavava. Com a calça jeans velha ainda molhada sentei ao computador para fazer nada, mas era um nada que, obrigatoriamente, intercala todas as ações do dia. Aí então ouvi palmas. Percebendo que era alguém desconhecido em busca de favores, respostas ou qualquer outra exasperação que atrapalharia o meu nada, eu sublimei; no entanto, o ser bonito cheio do espírito santo – veremos que realmente o era –, ao perceber a indiferença, começou a bater com uma chave no portão produzindo um titilar único.
Eu interrompi o meu nada com ira de quem é atravancado num momento cotidiano e fui à janela do quarto prestar a atenção devida. Para minha surpresa, um surdo me fez um gesto de “venha aqui” com a mão e mudou a direção do olhar, como se estivesse a me ordenar ao encontro dele. Saí disposto a proporcionar ao insolente o que ele merecia.
Assim que apareci no portão ele me ofereceu um adesivo de um real estampado com a figura de Nossa Senhora Aparecida. Eu recusei negando a figura do adesivo, dando a entender que eu não era crente da divindade pintada; de pronto, ele sacou de sua pochete xexelenta outro adesivo: preto e branco, com desenho de formigas gigantes e de feições humanas, além do dizer “Jesus te ama”. Novamente eu fiz sinal de negação, dessa vez eu apontei o escrito “Jesus” e apontei pra mim, fiz “não” com o dedo indicador, juntei as palmas das mãos e fiz o “em nome do Pai”. Ele me fez uma cara de sacana, como quem percebe que está sendo enganado...
De pronto me perguntou se eu era do diabo! Apontou para mim, para baixo e fez um touro em mímica, acreditando que ia causar uma contradição. Plácido eu fiz “não”, fiz de novo, indiquei o céu, fiz mais uma vez, indiquei o chão.
- Eu nada!
O enviado mascate insistiu com idéias diabólicas sem transparecer malandragem, pois já temia estar diante de um anticristo convicto.
De nome de filme em nome de filme, animal por animal, nome de música a personalidades famosas, como se usasse luvas brancas, consegui fazê-lo entender que não compraria nem se os adesivos fossem estampados de Black Sabbath. Vi uma encenação interessante, carregada de questionamento: após pousar as duas mãos sobre o peito e fechar os olhos, ele traçou com as palmas das mãos esticadas duas linhas paralelas imaginárias no chão. Eu me belisquei olhando pra ele, apalpei meu braço e acusei um finish após aquela cena fúnebre. Ele arregalou os olhos, respirou fundo e depois relaxou... Apontou para si e, com um riso discreto, desenhou uma interrogação no ar, o ar que nada segura, que sopra as partículas pra longe, o ar do efêmero que acumulou em si todo o significado de curvas que não existiam. Milímetrodesenhada, a interrogação que não existia deflagrou o entendimento do humano. Acenou e foi embora.
Contei o acontecido para a minha mãe na cozinha; enquanto falava percebia mais e mais o quanto ignorante ele não era, ou era, ou não sei... Não sei se eu estava preparado para discutir existencialismo com um surdo feio e fedido que anda pelas ruas a vender adesivos cristãos. De qualquer forma:
- Merece até um real ele, viu?!
- E você deu?
- Eu não! Merecer ele merece, mas não sou eu quem vai dar!
Voltei ao normal.

domingo, 10 de maio de 2009

Mimese

Poucos grandes amigos: os mais amados.
Só aprendi as regras de acentuação gráfica no terceiro colegial e achei absurdo mudarem dois anos depois que eu aprendi! Por isso eu morrerei colocando acento em todas as palavras, inclusive nos nomes não acentuados cujos donos dizem "não ter acento". Tem sim e pronto acabou.
Ainda não tenho tatuagem, mas penso que em breve farei uma.
Já vomitei Fanta Tailândia.
Quero ter um dogue alemão com nome de gente, três vira-latas com nome de sabor de gelatina e um são bernardo.
Aposto que o ator Marcos Caruso vai urinar na cama quando ficar velhinho.
Me enjoa sentir o cheiro de nozes, porque em um certo natal eu comi sozinho um quilo de uma vez e passei mal
E eu só senti saudade da minha vó uns anos depois da morte dela, quando eu esqueci o cheiro dela.
Eu posso ser surdo e astigmata, mas sinto cheiro de tudo! Eu tenho alguma coisa com cheiros.
Já sentiu o cheiro da pata do seu cachorro?
O único doce do qual eu gosto mesmo é sorvete, e o que eu mais gosto dentre todos é o de pistache.
Odeio banho de chuva! É que nem tomar banho, só que fede, é frio e é perigoso!
Odeio praia.
Já rasguei uma calça jeans nova dançando funk.
O prato que eu mais gosto é uma vaca atolada que a minha mãe acertou de fazer uma vez só, faz tempo... Depois ela nunca mais fez uma vaca atolada tão boa quanto aquela, eu acho que ela tava inspirada porque a gente tava jogando Donkey Kong naquele fim de semana.
Tem dia que eu fico com medo do escuro e não sei por quê.
Não tenho cara de médico.
Quero morar um tempo na Espanha.
Já ganhei um bug elétrico em sorteio de supermercado (já tava com mais de 1,70m na época), vinho em bingo (eu tinha 9 anos) e cueca em amigo secreto (é... a cueca eu usei, né?!).
Gosto de Funk.
Dizem que eu danço bem, mas eu tenho medo de me ver dançando.
Todo mundo fala de “Ratatouille” mas eu não vi nada no filme.
Eu assisto ao BBB.
Nunca tive uma casa na árvore, mas acho que não queria não... Fazer o que lá?! (Não, crianças não fazem isso...)
Não comeria sorvete com catchup, nem com batata frita! Nem comeria brigadeiro com pipoca! Nunca comi, mas não gosto euclidianamente.
Já vomitei bêbado (lembra da Fanta Tailândia?).
Gente, mentir não é, necessariamente, feio.
Cético.
A Capitu traiu o Bentinho, sim! Vadia desgraçada!
Eu dramatizava Power Rangers.
Sempre achei idiotice caçar formigão de bunda, aleluia e afins... Botar eles pra brigar então nem se fala!
Na quinta série, uma vez, fui fazer uma piada do filme "O Pestinha" e estava gripado, daí eu ri antes da piada acabar e expeli um monte de ranho! A piada falava sobre "bifa" e "nariz"...
Já fui expulso da sala de aula por conversa n vezes.
Postulei o peritôneo como o maior mistério da anatomia humana, o controle de embreagem como o maior mistério do automobilismo e o AMPcíclico como o maior mistério da bioquímica.
Minha fruta preferida é melancia, mas o melhor cheiro é o do maracujá – que é a fruta da paixão de cristo, e não da paixão da safadeza...
Já tive um cachorro ao qual deram veneno.
Sou um sonhador, sei disso e mesmo assim acredito no que eu invento, consigo até contagiar pessoas!
Eu já caí no chão com uma marmita na mão e escorreguei e sangrei em meio ao feijão do almoço.

Astúcia

O tênis recém-comprado da Mizuno era demais: todo prateado com faixas azuis nas laterais, fora os amortecedores que deviam aguentar o peso de saltos de javali. Por falar em javali, sabia que no Tic Tac azul vai cera de ouvido de javali? De que jeito você acha que conseguiram fazer uma balinha minúscula, super ardida e meio forte? Por que é forte, já reparou? Não é só ardido... porque ardido é diferente de forte. O Tic Tac azul meio que metaliza a boca... E o tênis era legal! mas o que mais me chamou a atenção, há mais de dez anos, não foi o tênis prateado com faixas azuis e com amortecedores que me lembram Tic Tac azul, o que mais me chamou a atenção foi um mini-catálogo sanfonado.
Unido ao tênis por aqueles... ai, como eu explico? Sabe a coisinha de plástico branco mega resistênte que une a etiqueta da roupa ao cartãozinho de preço da loja? Aquele que corta a mão mas não arrebenta quando se faz força, aí puxamos com os dentes e parece que os dentes da frente vão sair da gengiva - quase a mesma sensação de quando o dentista tira o quadradinho metálico do aparelho fixo com o alicate! -, pois é, unido ao tênis com esse coisinho veio um mini-catálogo dos modelos de tênis da marca e eu tive uma grande idéia!
Influenciado pela onda do tele-entretenimento nacional da época, que contemplava um remetente carente com um dia de compras e diversão ao lado de seu "artista" preferido - mas tinha que provar ser fã, viu?! Pastas montadas com recortes de revistas e jornais eram cabais -, resolvi, eu, escrever uma carta para a Mizuno usando o endereço do próprio catalogozinho, já que eu não ia fazer pasta, né?! E de quem eu iria fazer pasta? O Chico Buarque nunca tinha ido ao Gugu, não seria um gordinho metido a esperto dos confins do mundo que melhoraria a programação dominical do SBT, certo?!
Na carta eu me coloquei miserável. Mal tinha o que comer, vivia num barraco insalubre. Era fossa, esgoto a céu aberto, ratos, gatos, sapos; tudo o que o meu parco conhecimento em sanitarismo tinha como condenável. Esse garotinho desfavorecido suplicava nada mais, nada menos, do que quinze dos vinte modelos de tênis que haviam no mini-catálogo-sanfona: um psx-12PRO para prática esportiva (saúde); um BIO4-U para freqüentar a missa (bem-estar mental, cultos e crenças); um 5X-SPEED para ir à escola (educação), etc. Minha imaginação prática foi argumentativa o suficiente.
Não recordo quanto depois eu recebi uma carta, o remetente não parecia ser alguém necessitado, não. Descobri com algum raciocínio que a Alpargatas era um empresa de calçados e ela dizia que, "infelizmente, não foi possível atender ao meu pedido".

Exórdio

Sempre gostei de palpitar textos alheios: vírgulas deslocadas, palavras repetidas, idéias mal explicadas, enfim, o que não faltavam eram defeitos a serem evidenciados!
Resolvi, então, escrever e constatar o quanto deve ser difícil submeter um trabalho à vontade sórdida de pessoas como eu.