Eu tinha acabado de dar banho no cachorro e tal qual a louça, era ele que me lavava. Com a calça jeans velha ainda molhada sentei ao computador para fazer nada, mas era um nada que, obrigatoriamente, intercala todas as ações do dia. Aí então ouvi palmas. Percebendo que era alguém desconhecido em busca de favores, respostas ou qualquer outra exasperação que atrapalharia o meu nada, eu sublimei; no entanto, o ser bonito cheio do espírito santo – veremos que realmente o era –, ao perceber a indiferença, começou a bater com uma chave no portão produzindo um titilar único.
Eu interrompi o meu nada com ira de quem é atravancado num momento cotidiano e fui à janela do quarto prestar a atenção devida. Para minha surpresa, um surdo me fez um gesto de “venha aqui” com a mão e mudou a direção do olhar, como se estivesse a me ordenar ao encontro dele. Saí disposto a proporcionar ao insolente o que ele merecia.
Assim que apareci no portão ele me ofereceu um adesivo de um real estampado com a figura de Nossa Senhora Aparecida. Eu recusei negando a figura do adesivo, dando a entender que eu não era crente da divindade pintada; de pronto, ele sacou de sua pochete xexelenta outro adesivo: preto e branco, com desenho de formigas gigantes e de feições humanas, além do dizer “Jesus te ama”. Novamente eu fiz sinal de negação, dessa vez eu apontei o escrito “Jesus” e apontei pra mim, fiz “não” com o dedo indicador, juntei as palmas das mãos e fiz o “em nome do Pai”. Ele me fez uma cara de sacana, como quem percebe que está sendo enganado...
De pronto me perguntou se eu era do diabo! Apontou para mim, para baixo e fez um touro em mímica, acreditando que ia causar uma contradição. Plácido eu fiz “não”, fiz de novo, indiquei o céu, fiz mais uma vez, indiquei o chão.
- Eu nada!
O enviado mascate insistiu com idéias diabólicas sem transparecer malandragem, pois já temia estar diante de um anticristo convicto.
De nome de filme em nome de filme, animal por animal, nome de música a personalidades famosas, como se usasse luvas brancas, consegui fazê-lo entender que não compraria nem se os adesivos fossem estampados de Black Sabbath. Vi uma encenação interessante, carregada de questionamento: após pousar as duas mãos sobre o peito e fechar os olhos, ele traçou com as palmas das mãos esticadas duas linhas paralelas imaginárias no chão. Eu me belisquei olhando pra ele, apalpei meu braço e acusei um finish após aquela cena fúnebre. Ele arregalou os olhos, respirou fundo e depois relaxou... Apontou para si e, com um riso discreto, desenhou uma interrogação no ar, o ar que nada segura, que sopra as partículas pra longe, o ar do efêmero que acumulou em si todo o significado de curvas que não existiam. Milímetrodesenhada, a interrogação que não existia deflagrou o entendimento do humano. Acenou e foi embora.
Contei o acontecido para a minha mãe na cozinha; enquanto falava percebia mais e mais o quanto ignorante ele não era, ou era, ou não sei... Não sei se eu estava preparado para discutir existencialismo com um surdo feio e fedido que anda pelas ruas a vender adesivos cristãos. De qualquer forma:
- Merece até um real ele, viu?!
- E você deu?
- Eu não! Merecer ele merece, mas não sou eu quem vai dar!
Voltei ao normal.