quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu odeio a Casa Primavera e meu sonho é ser a Casa Primavera e eu sei que é pesadelo

A Casa Primavera de Ouro Fino é uma dessas lojas que seus pais conhecem porque freqüentavam na infância, visto que seus avós eram, certamente, fregueses de tal estabelecimento. Você, jovem que foi fã de Malhação em algum período da sua vida - por mais que isso te envergonhe hoje -, entraria na Casa Primavera para comprar peças que te faltam numa fantasia, como espuma em flocos e camisa branca por exemplo. É absurdo pagar caro numa camisa toda branca que vai te servir para sujá-la! Os artigos da Casa Primavera são de qualidade questionável, mas são baratos. É para o tipo de público que gasta um quantia X de dinheiro por ter que comprar três camisas brancas em três anos. Há o grupo que gasta uma quantia X de dinheiro em uma camisa branca só, e permanece com ela por três anos. A diferença dos dois modos é que naquele você precisa de, aproximadamente, 0,333333X por vez e neste você precisa ter X de uma vez só. Levar em consideração que X é igual a R$90,00 ajuda na compreensão. Irrita um pouco na hora de experimentar a camisa branca, é justo considerar chato ter que explicar que é para uma fantasia que a pessoa que te atende não vai entender. É justo considerar chato ter que explicar o que é droog e o que é Laranja mecânica sabendo que não vai adiantar. É justo querer ver sangue saindo da cabeça quebrada da merda da atendente por ouvir um "ai, que gostoso!" só porque a festa à fantasia a qual você se refere é a de Campinas e não é a de Ouro Fino... Aquele ar de inferioridade só porque você freqüenta festas em Campinas e o curso de medicina referência nacional não causa nela a mesma inveja. Mediocridade.
É permitido entrar na Casa Primavera para comprar presentes de amigo secreto, porque tirar o professor é complicado...! A menininha nerd comemora e o esculachadão repetente solta assim que termina de ler o nome - e não assim que bate o olho -, um "puta que pariu, meu, que bosta!", é ou não é? Deve-se dar um presente bom, não só por orgulho, mas também por merecimento, afinal aturar salas com quarenta almas entusiasmadas é coisa de gente grande... A Casa Primavera tem artigos baratinhos e bonitinhos, os quais agradam o professor e não ferem o bolso dos pais: camisetinhas femininas de R$1,76; carteiras de um material parecido com couro mas que deve demorar mais que piche para se desfazer na natureza; chinelos rasteirinhas - e que mulher não gosta desse tipo de calçado? São confortáveis como uma havaianas e podem ir ao trabalho, já que tem strass, chefinho!
A loja jaz num ponto da rua principal da cidade. Não mais em um salão grande - tipíco de comercial da Bauduco quando decidem enfatizar a tradição da marca no mercado -, com vitrines sofrivelmente decoradas; agora ocupa um espaço no andar menos um. Seu elo de ligação à calçada da rua principal é uma porta. Da porta a escada que desce mergulhando na penumbra, visto que por mais iluminada que esteja nunca está clara. Repleta de mulheres velhas e gordas às terças, quintas-feiras e sábados e entregue ao tédio nos outros dias das semanas, inclusive no domingo, pois eu duvido que o dono tenha mais que o Faustão para substituir a caixa registradora e duvido que as moças atendentes tenham mais que a paquera da missa ou falos incompetente do namorado ajudante de mecânico pra incluir vida na existência. Terça, quinta e sábado são os dias que vem o circular da roça! Dias de ir ao banco pegar a aposentadoria, de ir à Utilar ver se o paneleiro deu um jeito na panela de pressão, dia de ir ao Supermercado Shimoda comprar arroz e litros e litros e litros de óleo de soja e dia de ir à Casa Primavera comprar uma camisa pro filho, cueca pro marido, calcinha pra enteada, anágua pra mãe e pano de pratos para si própria. Observa-se mais um agravante - não me refiro ao pano de pratos! -: terças, quintas e sábados do início e meio do mês, sempre sobra mês no fim do recebimento.
Bons tempos da família tradicional do mascate que subiu na vida esses que mencionei. Sim, os relembrados nos comerciais de natal da Nestlé! Creio eu que foi reflexo da ascenção da DuPont nos Estados Unidos. Quem diria... Meias artigo de luxo, mesmo não sendo de seda! Observa-se mais um agravante e sim, agora eu me refiro à ânsia carne podre, à vontade de imitar os ricos, à cegueira que fez meias de algodão enriquecerem um mascate no Brasil e culminou com a inauguração da Casa Primavera. Bonito nome! Imagina... que linda a Casa Primavera! Não é a casa da primavera! É a Casa Primavera... Deve cheirar lavanda bem fraquinho, um ambiente no qual o branco é meio azulado e a pupila contrai a menor que um ponto, por mais infinito de grande e pequeno ao mesmo tempo que um ponto seja... Também há a possibilidade de se ir à Casa Primavera comprar uma regata branca: meu sonho! Coisa de gente chique de verdade! Essa onda simplicidade, negação ao capitalismo, acordo lindo assim... Mas tem que ter corpo, não é? A regata branca denuncia se o braço é fino demais, se não tem ombro nem peito, se a barriga está meio saliente, é uma desgraça! O dia em que eu vestir uma regata branca e achar que estou bonito, que está legal, o meu medo em ser assaltado não vai mais ser a possibilidade de o ladrão ser um pivete que não tendo o que roubar leva minhas roupas e meu tênis, deixando-me de cueca em público e me fazendo passar vergonha. É uma questão de raciocínio: se eu estava de regata branca na rua é porque me aceitei com ela, ou seja, estava gostoso o suficiente para usá-la e para não passar vergonha em caso de semi nudez no meio da rua. O dia em que eu estiver vestido com uma regata branca da Casa Primavera meu medo em ser assaltado vai estar no prejuízo do roubo, tornando o meu capitalismo cheio de densidade psicológico-poética um capitalismo carne podre do nascimento da Casa Primavera. O dia em que eu realizar o meu sonho de comprar a regata branca da Casa Primavera eu vou ser um pouco da lamentável Casa Primavera... É como não poder ir ao meu próprio Réveillon.

Um comentário:

Anônimo disse...

Impressionante seu incrível talento literário! A capacidade descritiva, a mineiridade implícita mas desavergonhada! Deste blog sai um livro!