Faz um tempo que as coisas, todas elas, têm sido difíceis. Hoje, durante uma parada da viagem, eu só fumava um cigarro com a inocência de quem fuma na rodoviária e fui apunhalado por um senhor demasiadamente simplório de vestes, com boné velho sobre cabelo oleoso. Absolutamente do e por nada ele despejou em mim uma curiosidade:
- Imagina um homem apaixonado voltando para casa.
Não mesmo. O que fazer com o humilde homem a me pedir os ouvidos?
E olha que era uma escuta cara, pois antes de começar a fumar um bêbado me pediu um cigarro e eu menti que não tinha. O pior de tudo foi a percepção de que ele não estava bêbado o suficiente para considerar seus padrões ao interpretar a vida. Ele sabia que de short e camiseta no frio e sem banho estava sendo julgado nos padrões da lucidez. Andando descalço na rua suja que te serve, por vezes, de cama.
Mesmo sabendo não dever, eu dei corda para o narrador da situação e fiquei a ouvir o quanto era a felicidade dele: sua embriaguez estava no sofrimento de ser condenado ao trabalho. Estava esgotado do trabalho, não aguentava mais manusear tratores na Bahia, Pará, Ceará e não sei mais em quais estados brasileiros. "Mil e oitocentos reais por mês, rapaz! Pra quê?". Dizia-se estudado, com curso em segurança do trabalho, operação de máquinas pesadas e tinha filha advogada, casa própria, apartamento de dois andares bom e carrinho. A filha insistia pela aposentadoria! Não mencionou a mulher. E não parava de falar sobre a vida que o fez um homem do trabalho. O behaviorismo de acordar cedo na infância para colocar seu corpo e sua mente - mais o corpo que a mente -, a favor de uma artificialidade. Perguntou do clima, de onde eu era, aonde eu ia e sai quando ele disse que não sabe fazer como essa moçada de hoje, que dormir o dia inteiro é difícil, que tomar a decisão de aposentar-se foi cruel. Dormir é um assunto delicado para mim!
Depois que eu vi o ser de corpo de boneca e cabeça de mulher que andava com uma muleta, dormir pra mim é pecaminoso. Demonstrava-se embriagada. A voz e o vocabulário eram infantis. "Minha boca está dormente". Sotaque nordestino, cabelos loiros bem enrolados e compridos enfeitados por uma flor azul de tecido, boca pintada de vermelho e lábios velhos, mas eu perguntei a idade por suspeitar de pedofilia, visto que aparentava doze anos! Os olhos bobos que pareciam nem conhecer todas a cores, sabe? Aqueles olhos que tem um lágrima guardada de quem chora por sono, banho ou comida. Não sei como explicar, porque os olhos olhavam certo... Ela não era nova! E tinha o corpo desproporcional, sinceramente! Hora me pareceu ser uma pessoa com uma síndrome Peter Pan física do pescoço para baixo, como uma anã bem baixa. Hora me pareceu ter braços longos demais com um tronco extremamente, muito mesmo, magro. Minha conclusão é que era um corpo pequeno, braços compridos, uma mola no lugar de uma perna, enfim, a penumbra me confundia o corpo dela, mas o rosto era de criança e de moça ao mesmo tempo.
- Lindinha, quantos anos você tem?
Isso porque o jogo Carué tinha sido bem sucedido no pré-abate das mocinhas, claro. Senão ela não usaria a muleta para guardar o assento vizinho para um homem cujo nome não me lembro. Era outro ônibus, outro dia. Íamos para uma festa e eu a vi. Primeiro enquanto eu subia no ônibus, depois no banco da frente. Não sei se ela me perguntou quantos anos eu dava pra ela, mas acho que disse doze, sim. Ela disse na verdade ter vinte e dois e, como que se me mandasse um recado para mim ao falar com todos que ouviam, afirmou saber o que acontecia, que sabia se cuidar, que imaginara a boa aparência no futuro, que era um saco ter todos olhando pela segurança dela e que a mãe dela estava lá, dois bancos à frente, para cuidar dela? Dormir já seria suficientemente difícil sem as voz dela relembrando o estado de pálpebras baixas e o corpo mole:
- O ato falho é a vitória do inconsciente...
0Porque ela sabia que eu queria lembrar, justamente, dessa frase? What not to do: mantras, eles são perigosos! Opa Carué quantas patacas tem na feira, Me Lambe? Opa! Na feira... Suculenta... Deliciosa? Opa! Na feira... Vou Gozar... Me Chupa! Opa... Na feira? Me Lambe... Gozadinha! E nesse trava língua de vocativos estratégicos, a cada vez que alguém da roda errava, bebia. As moças, mais fracas na astúcia e na resistência alcoólica, bebiam mais e eram embaladas pelas frases bem ditas. Os apelidos mudavam: Ai, Gostoso, Ui, Vem!, Ah..., Opa, etc. E quando alguém se complicava respondendo em hora errada ou não respondendo, cantava-se em coro que o Carué não é um jogo para mané, no qual se bebia até o dia amanhecer. Quando o líder da roda, o Carué, erra, ele também bebe e, uma vez, ouvi algum coro sobre sendo o ato falho uma vitória do inconsciente. Como não deixar sua alma ser levada por murmúrios, pela vontade que devia cheirar mais forte que a pinga da garrafa pet, pelo errado acontecendo? Acho que é por isso que o inconsciente ganha e eu acho que aquele moça com corpo de boneca e cabeça de mulher estava fazendo uma escolha, só. Tal qual a outra que, coincidentemente, fizemos igual.
- O ato falho é a vitória do inconsciente, só digo isso!
O assunto da idade dela rendeu. Nas conversas até disseram que Carué era jogo de tornar fáceis as menininhas e ela prontamente concordou - com os olhos caindo e com os dedos testando a sensibilidade da boca, prontamente, no entanto. A menina-mulher-anã-perna-de-mola resmungou mais no mesmo tom infantil, falando sobre doces, pirulitos, mãe e risadas de quando o palhaço tira a cadeira do outro palhaço. Questionaram sobre seu grau escolar e eu só lembro ela dizendo que tomou bomba três vezes, duas! Três! Reprovada mais de uma vez por ser burrinha e não gostar de estudar, não. Gosta de dormir.
- O ato falho é a vitória do inconsciente...
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